Tecnologia da Informação sofre com falta de profissionais experientes e que saibam coordenar equipes.
Avis rara
Tecnologia da Informação sofre com a falta de profissionais experientes e que saibam coordenar equipes.
Um certo tipo de profissional do setor de tecnologia da informação (TI) vem dando a maior dor de cabeça às empresas. Não porque trabalhe mal. Pelo contrário: porque trabalha bem. Trata-se de gente com um perfil bastante específico: mínimo de dez anos de carreira, sólidos conhecimentos técnicos e experiência em gerência de equipes. Das micro e pequenas empresas filiadas ao Sindicato das Empresas de Informática do Rio de Janeiro (Seprorj) à multinacional Google, todas estão atrás desse profissional.
O diretor de Comunicação da Google Brasil, Félix Ximenes, diz que, ainda que a gigante desperte a atenção de quem está no mercado de trabalho, é difícil contratar pessoas assim:
- Nossa preferência é, inclusive, por pessoas com mestrado e doutorado. Mas a maioria dos brasileiros com essa qualificação está no exterior. Sempre temos dificuldade de achar pessoas com essa experiência, aqui. E nos próximos dez anos, esse déficit deve aumentar.
Rosângela Caublt, chefe do departamento de segurança da Informação da Módulo, uma das maiores consultorias de TI do pais, conta que, por causa da escassez de mão-de-obra, profissionais como ela acabam escolhendo onde querem trabalhar. Porém, como são poucos os pares com a mesma qualificação, a sobrecarga acaba sendo grande.
- É complicado até achar quem nos substitua nas férias - conta Rosângela, que tem 47 anos, fez doutorado em segurança da informação e vai completar 30 anos de carreira.
Se há uma unanimidade no setor, é a de que formou-se um vácuo no treinamento dos recém-formados. Por ganharem bem no início de carreira, muitos desistem de continuar estudando. Resultado: ficam desatualizados.
- Essa é uma área em que o conhecimento circula muito rápido. Muitas vezes, quando a pessoa aprende algo novo, já existe informação diferente no lugar - diz a gerente de Recursos Humanos da Módulo, Karina Vidinha. Opinião semelhante tem Cláudio Alves, que, com 15 anos de carreira, é diretor da Datasul no Rio. Ou seja, tem o cobiçado perfil e dificuldades para contratar profissionais como ele.
- As pessoas não acompanham o mercado e se dedicam pouco à profissão. Tem muita oferta para quem começa, mas a tecnologia também é muito rápida. Levei de janeiro a setembro do ano passado para encontrar quatro gerentes - conta Alves, acentuando que hoje prefere formar gestores que ganham R$ 7 mil do que tirar profissionais de outras empresas, por R$ 12 mil. - O problema é que essa formação exige, em média, dois anos. É preciso obter prática, além da certificação, emitida por institutos internacionais.
Escassez se agrava nas microempresas
Além de contar com poucos recursos para contratações, firmas perdem gestores para companhias maiores
Nas micro e pequenas empresas de informática do Estado do Rio, o problema da falta de profissionais que fazem carreira no ramo de tecnologia da informação também acontece. Neste caso, o motivo não está só na escassez do mercado de trabalho, como também na falta de recursos para contratação (de gerentes ou de funcionários a quem delegar tarefas).
Segundo o diretor do Sindicato das Empresas de Informática do Rio (Seprorj), Luis Carlos Carvalho, o próprio dono da pequena empresa - normalmente um profissional experiente, responsável por abrir novas frentes para o negócio - acaba envolvido demais com questões técnicas, como programação de dados. Ficando, portanto, sobrecarregado:
- Mais que isso, é comum o empresário perder, para companhias maiores, funcionários talentosos, nos quais ele aposta para a função de gerente. A saída está no treinamento. Se a pequena empresa não pode pagar salários como os das grandes, deve reter pessoas pela chance de aperfeiçoamento, que é uma solução mais barata. Sem uma boa equipe, não se pode crescer.
Ano passado, Araújo decidiu fazer uma pesquisa por conta própria, para investigar a amplitude da questão: distribuiu um questionário a 70 empresas de micro e pequeno portes associadas ao Seprorj. Descobriu que, em 80% dos casos, o empreendedor estava envolvido nessas atividades práticas.
- É necessário formar quadros, dar oportunidade de carreira e melhorar a qualidade da gerência nas empresas como um todo. Assim, a perda de um bom funcionário não representará o fim do capital intelectual da empresa.
Por incrível que pareça, às vezes a companhia oferece treinamento, mas os funcionários não aceitam. Isso já aconteceu na Nasajon Sistemas (uma companhia de grande porte), como lembra Pierre Duque, gerente do departamento de Desenvolvimento. Ele, aliás, começou como programador há 18 anos atrás e apostou, inclusive, numa pós-graduação.
'As pessoas não gerenciam as suas carreiras'
- Passei por uma situação difícil, uma vez. Tive que demitir um colega que começou comigo na profissão. Foi inevitável, ele ficou para trás - lembra Duque. - Ele sabia tudo
de programação. Mas o tempo passou, e a empresa foi trocando de tecnologia. Chegou um momento em que ele sabia tanto quanto um estagiário, só que com um salário alto.
Ainda hoje, acrescenta o gerente, a situação se repete:
- Eu me ofereço para conversar com os funcionários sobre suas carreiras. Mas alguns respondem: "daqui a dez anos, quando a tecnologia mudar, pensarei nisso". As pessoas não gerenciam suas carreiras.
Duque, ao contrário, se sente valorizado pela empresa:
- Sem dúvida, sou. Mas não é à toa. Já na faculdade, quis progredir e consegui bolsa do CNPq. Sou obcecado pela qualidade, quero sempre o trabalho bem realizado.
Para quem se esforça, os salários são altos: um profissional certificado no sistema PMI, por exemplo, já sai ganhando, de cara, R$ 10 mil.